Intolerância e violência contra demonstrações de afeto em público

“Começaram a atirar pedras e a xingar ‘viado’, ‘boiola’”

Carlos Augusto

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Representação dos amigos que foram agredidos na Cachoeira da Serrinha. (Foto: Carlos Augusto).

Final de outubro de 2017. Quatro amigos resolveram ir à cachoeira para aproveitar o fim de semana e se afastar da rotina universitária. O passeio foi um momento de lazer até a volta para casa, quando o grupo foi atacado por pedras e xingamentos vindos de oito adolescentes com cerca de 15 a 18 anos. As demonstrações de afeto em locais públicos já foram temas de inúmeras reportagens e ensaios fotográficos, como o do fotógrafo brasileiro Calé Azad, publicado no livro Elo. Em suas fotos, o fotógrafo evidencia como os afetos compartilhados em público podem gerar diversas reações nos expectadores. No caso específico a seguir, é possível imaginar como a violência, muitas vezes fatal, pode surgir de um simples abraço.

O grupo formado pelo jornalista e mestrando da UFOP Aleone Higídio, mais três amigos, foi vítima de ataques homofóbicos na estrada que leva à Cachoeira da Serrinha, em Mariana. Segundo eles, pela constante negligência policial em casos como esses e por desconhecerem os autores da ação, não puderam registrar um boletim de ocorrência, nem prestar depoimento sobre o ocorrido.

Aleone conta, em entrevista dada ao Portal Lamparina, que ao chegarem à Cachoeira da Serrinha perceberam a presença de um grupo de oito jovens aparentando ter cerca de 15 a 18 anos. Não intimidados pelos olhares vindos do outro grupo, o jornalista e seus amigos permaneceram na cachoeira por algum tempo, até que dois de seus amigos se abraçaram e, a partir disso, foram imitados por alguns dos oito jovens.

 

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Representação do abraço que gerou a violência. (Foto: Carlos Augusto).

Na volta para casa, Aleone notou que ele e seus três amigos estavam sendo perseguidos pelos adolescentes a mais ou menos 10 metros de distância e acabaram sendo barrados pelo grupo, que pediu um cigarro. Embora imaginasse que os garotos já estivessem longe, Aleone foi surpreendido por pedras e xingamentos. “Nesse desvio, eles viraram. Esperaram a gente descer um pouquinho, para ficarem numa altitude mais vantajosa e começarem a atirar pedras de lá de cima. Começaram a xingar ‘viado’, ‘boiola’”.

Antes mesmo dos ataques com pedras, os adolescentes haviam imitado o caminhar dos quatro amigos. Imitavam os gestos e as trocas de afetos, fazendo pilhérias e comentários preconceituosos. Em alguns momentos, eles se abraçavam e logo se afastavam um dos outros, dizendo que não eram gays para estarem se abraçando. Tudo isso para fazer alusão às vítimas, um modo muito comum de tentar intimidar e atingir casais homossexuais.

Ao ser perguntado sobre quais foram as demonstrações de afetos no momento em que estavam na cachoeira, Aleone disse: “A gente nem se beijou, só se abraçou. Eles passaram por nós e um deles começou a abraçar o outro também. Abraçando-se e dizendo ‘sai para lá’. Estavam imitando como uma forma de zombação mesmo”.

Pontos de vista

A Lei do Mosaico, presente na Bíblia Cristã e Hebraica, normatizava que um indivíduo deveria ser apedrejado até a morte em 18 situações, dentre elas estão a zoofilia, a blasfêmia e a homossexualidade.

Sobre a troca de afetos, como beijos e carinhos, entre pessoas do mesmo sexo, o jovem Melquesedeque, evangélico e natural de Mariana, disse ao Lamparina: “Nada contra. Antes de ser evangélico já namorei em locais públicos, sempre me relacionando com meninas. Mas ao se tratar de casais homossexuais, não dou minha opinião sobre isso. Apenas acredito que à tarde vem muita criança para o jardim, por exemplo. As crianças não podem ver isso. O horário mais apropriado seria o período da noite, acredito”.

 

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Representação: volta para casa. (Foto: Carlos Augusto).

Melquesedeque argumenta que os afetos exagerados devem ser deixados para casa. “A casa é o lugar mais apropriado. Um selinho, abraço, tudo bem. Mas a intimidade é mais em casa, a rua não é um local apropriado. Os afetos também são mais para casais.” O jovem estacou ainda não ter nada contra casais homossexuais, só não concordava com esse tipo de escolha. Para ele, Deus não concordaria com isso, da mesma forma como ele não concorda, mas respeita.

Para Graziele Ferreira, 30, as crianças também são sua principal preocupação sobre o assunto. “Eu fico envergonhada pelas crianças. Às vezes há muito exagero, não respeitam quem está ao lado”.

 

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Afeto de um casal hétero à tarde na Pça. Gomes Freire. (Foto: Carlos Augusto).

 

A irmã de Graziele, Girlene Ferreira, marianense de 37 anos, no momento da entrevista, lembrou-se de um fato que aconteceu em um ponto de ônibus da cidade. “Eu estava esperando pelo ônibus. O ponto estava lotado de gente. Um casal hétero, do nada, começou a se abraçar e beijar exageradamente. O povo ficou cochichando entre si. Todo mundo ficou incomodado pela situação. É muito constrangedor”. Ela diz ter presenciado vários outros casos semelhantes por alguns bêbados nos pontos de ônibus.

Combate à intolerância

Não são todos os espaços públicos de uma cidade que estão disponíveis para todos os seus cidadãos. As populações com maior vulnerabilidade social são as que mais sofrem dentro e fora de casa. Grupos LGBT, por exemplo, são os principais alvos de agressões e homicídios no Brasil. Matéria publicada pelo Diário do Nordeste diz que em 2017, cerca de 16 travestis foram espancadas e mortas no Ceará. Dandara dos Santos, 42 anos, foi uma das travestis mortas.

 

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Dandara dos Santos. (Foto: Estado de Minas.)

 

Dandara foi espancada por três homens em uma das ruas de Fortaleza em 15 de fevereiro de 2017. Antes de morrer, a vítima foi agredida com madeiras, socos, chutes, chineladas no rosto e xingamentos em relação à sua sexualidade. Dandara morreu a tiros e, em seguida, foi apedrejada pelo grupo de agressores e outras pessoas que assistiam à execução.

De onde vem a intolerância?

Segundo Dalva Regina, psicóloga que atente em Belo Horizonte e Janaúba, a violência contra as minorias em locais públicos é histórica e cultural. “Nossa sociedade tem uma formação religiosa intrinsecamente entranhada. Foram incutidos valores morais e religiosos de forma que as pessoas não estão preparadas para verem e lidarem com situações que fogem aos padrões culturais pré-estabelecidos por uma sociedade preconceituosa e limitada.”

“As manifestações de afeto são mais atacadas, porque o homossexualismo está buscando seu espaço. Mas como não é aceito como “padrão”, ele será rechaçado e atacado com muito mais veemência e desrespeito”, disse a psicóloga explicando sobre a intolerância aos afetos de casais homossexuais”.

 

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Representação: casal homossexual dentro da universidade. (Foto: Carlos Augusto).

A intolerância em relação a aqueles que diferem do padrão pré-estabelecido numa sociedade tornou-se mais visível nas ruas do Brasil e do mundo nos últimos anos. Contudo, o que deveria ser um símbolo de paz, como um abraço ou outro tipo de afeto, transforma-se em armas que apenas servem para gerar guerras políticas e também sociais.


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Carlos Augusto Júnior, baiano, 18 anos. Segundo período de Jornalismo. Editor de texto no Lamparina. Amante das palavras que constroem histórias e pessoas.

Contato: carlosaugustopsjr@gmail.com

 

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4 comentários

    • Oi, tia Meire. Desculpe o atraso em respondê-la. Sou eu quem se sente imensamente grato pelo carinho e pela companhia de sempre. A senhora sempre teve a disposição e o maior amor do mundo para nos ensinar o real valor de uma palavra. Um grande abraço!

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  1. Augusto, fico imensamente feliz por ver e acompanhar o seu deleite com as palavras, use-as sim, para a construção e formação de pessoas boas e humanas como você é. Sucesso meu amor! 👏🏼👏🏼👏🏼👏🏼

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    • Oi, Maga. Obrigado pelo carinho de sempre e me desculpe também pela a demora. Fico muito feliz em saber que você acompanha meus passos também. Muito obrigado! ❤

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