Comportamento

“Muito além de Ufopianos, também somos Escotistas”

Ana Laura Murta

Muitos universitários não acreditam que conseguem, e podem conciliar outra atividade com a graduação. Porém, Ana Carolina Chagas, 19, Paloma Bento, 20, Reginaldo Mota, 21, e Orlando Dutra, 21, estudantes da Universidade Federal de Ouro Preto, não encontram nenhum obstáculo quando o assunto é dividir o tempo entre a UFOP e o escotismo. Esses quatro jovens são universitários, e integram o 8º Grupo de Escoteiros de Ouro Preto.

O escotismo é uma atividade que foi fundada em 1907 pelo ex-general Robert Baden-Powell e se autointitula ‘’um movimento para jovens, feito por jovens’’. O 8° Grupo de Escoteiros da UFOP foi fundado em 15 de novembro de 1980 e é composto por 80 integrantes que se dividem entre crianças, adolescentes e jovens. Paloma Bento, 20, uma das quatro ufopianos que integram o grupo, explicou que o direcionamento dos seus ensinamentos tem como base três pilares.

O primeiro pilar, é o dever consigo mesmo. Paloma explica que cada pessoa tem que ter um cuidado com a mente e com o corpo, que precisa estar saudável e psicologicamente bem para poder absorver os ensinamentos e repassar para os futuros integrantes. O segundo pilar é o dever com Deus, que não está ligado à religião e sim, a fé que a pessoa tem em algo ou alguém. Ser patriota e amar seu país é o último dos três pilares. O dever com a pátria e a sociedade em que estão inseridos é fundamental para quem quer entrar para o escotismo, uma vez que os grupos realizam trabalhos solidários nas suas respectivas regiões.

Para ilustrar esse três pilares, Orlando, 21, nos conta que os escoteiros usam como símbolo os dedos das mãos num gesto de juramento.

 

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FOTO: Momento de juramento dos três pilares do escotismo.

Ao virar integrante do grupo, cada pessoa, de acordo sua idade, ocupa um ramo. Que é sua posição dentro da equipe. Os quatro estudantes são pioneiros, ramo ao qual são direcionados os jovens de 18 a 22 anos. Abaixo dos pioneiros está o sênior, adolescentes de 14 a 18 anos e as crianças de 7 a 10 são chamadas de lobinhos. Os pioneiros têm a função de repassar todo o aprendizado para os mais novos, para isso eles fazem cursos e capacitações de didáticas específicas para trabalhar com cada idade.

“Acredito que o jovem permanece no escotismo por que a partir do momento que ele começa a integrar o grupo e entender o seu real objetivo, todos aqueles preconceitos que a sociedade impõe sobre “ser escoteiro” são quebrados. A forma lúdica, principalmente para os lobinhos, de como repassamos os ensinamos e valores da vida os fazem se interessar pelo grupo e com isso eles estão aprendendo de uma forma diferente que se aprenderia em outro lugar,’’ explica Reginaldo Mota, 21, estudante de Filosofia e um dos pioneiros do grupo.

 

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FOTO: Reginaldo, no centro da roda, ministrando atividade com os escoteiros.

 

Esses ensinamentos que eles sempre frisam são os valores que são socialmente julgados como corretos e que toda pessoa tem que absorver e praticar. A partir daí eles trabalham em cima desses conceitos, como o trabalho em grupo, lealdade, independência, educação, respeito e responsabilidade. Para que cada integrante coloque em prática esses valores, os estudantes e pioneiros preparam atividades e trabalhos que são realizados todos os sábados durante os seus encontros, que geralmente são na parte da manhã e em algum local público, como escolas ou quadras.

Ufopianos e Escotistas

Não é fácil estudar em uma universidade federal e conciliar com outras atividades que requer um maior tempo e dedicação, como o escotismo. Quando perguntado a Orlando, 21, como ele otimiza o seu tempo entre as obrigações como estudante e como escoteiro ele responde:

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FOTO: Orlando Dutra, 21, Escoteiro e estudante de Engenharia Mecânica.

“Uma atividade não interfere em outra, consigo ser um bom aluno e ser um bom escoteiro. Até participo da Empresa Júnior do meu curso.Alguns amigos que não entendem, quando deixo de estar em alguma distração com eles para participar dos encontros com o grupo aos sábados’’.

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FOTO: Ana Carolina Chagas, 19, Escoteira e estudante de Arquitetura e Urbanismo.

Ana Carolina Chagas, 19, é estudante de Arquitetura e Urbanismo e há um ano e meio é uma das integrantes do grupo.Uma jovem que se diz segura, capaz, autoconfiante e aluna de uma turma de aulas de forró. Ana atribui todas essas qualidades ao escotismo, “me sinto segura e agora mais desinibida, o forró, por exemplo, é uma dança que sempre quis aprender, mas a timidez não deixava. No grupo, tenho que conviver com outras pessoas e isso tirou um pouco o meu receio de realizar outras coisas. Na UFOP consigo desenvolver melhor meus trabalhos orais e me sinto mais capaz de realizá-los. Concilio bem as duas atividades e preciso de ambas’’.

 

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FOTO: Paloma Bento, 20, Escoteira e estudante de Engenharia de Controle e Automação.

Já Paloma Bento, 20, entrou no escotismo por influência do seu namorado, que também é escoteiro. E diz que ser escoteira não é um problema para quem também é universitária: “Antes eu era bem indecisa, quando entrei no grupo aprendi a ter mais certeza daquilo que eu quero’’. Ainda acrescenta uma frase que aprendeu como grupo e leva para si:

“Remar a própria canoa e ser protagonista da sua vida”.

 

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FOTO: Reginaldo Mota, 21, Escoteiro e estudante de Filosofia.

Reginaldo Mota, 21, também não encontra dificuldades entre a UFOP e o escotismo. E diz: “Aqui tenho uma sensação de pertencimento que às vezes não temos na faculdade. Aqui todos podemos ser quem somos e as diferenças são acolhidas e aceitas. A partir do momento em você integra o grupo passa a ver as coisas de outro modo e se tornar mais responsável. Esses valores com certeza me agregam na UFOP e na vida. ’’

 

Os quatro ufopianos e escoteiros têm algo em comum quando relacionamos a universidade com o escotismo. Ambos se sentem melhor, tanto na faculdade como na própria vida após a inserção no grupo. Não vêem como uma situação truculenta conciliar ambas as atividades e se sentem bem em estar inseridos naquele grupo.

Preconceito na UFOP 

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No contexto universitário, a pessoa como indivíduo ou fazendo parte de grupos tende a sofrer algum tipo de preconceito no decorrer da vida acadêmica. A psicóloga Jussara Oliveira, que atua na Prefeitura Municipal de Ouro Preto, explica que esse preconceito é vivenciado por vários jovens e em qualquer universidade. O fato de alguns movimentos, como o escotismo, ser desconhecido pelos estudantes gera essa discriminação e muitas vezes o desinteresse dos próprios em saber mais sobre o assunto, que tem como consequência um pensamento crítico errôneo sobre o grupo.

Os estudantes contam que essa discriminação com o escotismo aparece de várias formas. Paloma Bento, 20, a estudante de engenharia de controle e automação, explica que dentro da universidade as pessoas ridicularizam e fazem piadas quando ela diz ser escoteira. “Quando me perguntam o que eu faço além da UFOP e eu digo que sou escoteira, a galera começa a fazer piada e falar que o movimento não serve pra nada, que apenas vendemos biscoitos.

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FOTO: Paloma Bento com a bandeira do Clã Inconfidentes.

Aí eles fazem diversas piadas sem nem entender sobre o que estão criticando’’. A estudante diz não se importar com as críticas porque por mais que elas incomodam, ela entende o quão relevante é para ela integrar o movimento: “Normalmente os estudantes buscam certo desenvolvimento em palestras e workshops. Mas temos isso todos os sábados e trabalhamos como uma progressão, porque por mais que uma palestra de ‘como focar nos seus objetivos e ser mais proativo’ possa ajudar o jovem, não é algo que ele vai aprender em apenas 2h. O movimento escoteiro trabalha valores em cada um como uma construção, com o objetivo de criar bons hábitos. Entregando para a sociedade um adulto responsável, proativo e seguro de si’’.

Ao ser questionada sobre o preconceito na universidade, a estudante de arquitetura Ana Carolina Chagas, 19, concorda com o posicionamento da colega Paloma Bento e acrescenta: “Inúmeras vezes deixamos de ir a alguma festa, por exemplo, para participar de alguma atividade escoteira e os colegas nos criticam e não entendem o amor e compromisso que temos pelo movimento’’. A estudante frisa que não são todos, mas uma grande maioria julga o escotismo e nem ao menos tem o interesse de saber mais sobre.

Orlando Dutra e Reginaldo Mota já eram amigos antes de integrar o grupo de escoteiros e ambos dizem que escutam bastantes piadas de colegas que sempre que os veem perguntam se eles têm biscoitos para vender. “Sempre querem saber o que fazemos nos acampamentos, mas nunca tem paciência para ouvir”, acrescenta Reginaldo, que também diz que não comenta muito sobre o escotismo na faculdade por que os colegas não levam a sério.

Talvez seja o preconceito que faz com que os estudantes da UFOP sejam uma pequena parcela dentro do grupo, parcela esta que faz toda diferença.

 

Informação

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FOTO: 8º Grupo de Escoteiros de Ouro Preto.

Atualmente o grupo é coordenado por Andrea Bianch e como presidente está seu marido Rodrigo Bianch, que é também o mestre, termo que os escoteiros usam para dar nome ao ramo que cada pessoa ocupa dentro do grupo. Para os interessados em ingressar no movimento, não é necessário ter alguma habilidade especial, ou pré requisitos. Não existem mensalidades ou taxas. O interessado precisa comparecer aos encontros, que ocorrem todos os sábados, e a partir daí estar disposto a absorver e repassar os ensinamentos que irá aprender. Nas redes sociais, o grupo pode ser encontrado no endereço: facebook.com/35anosgeop ou no site escoteiros.org.br.

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FOTO: A escoteira Raíssa Correa após receber sua medalha.

No dia dessa reportagem, uma das escoteiras sênior do grupo, Raíssa Correa, 15, recebia uma medalha, como forma de gratificação pelo seu esforço e dedicação dentro do grupo. Como  agradecimento, o integrante que é contemplado com títulos ou medalhas grita uma frase de efeito, que me sinto confortável e muito feliz em usar também, para finalizar essa reportagem:

“GRATO, GRATO, GRATO’’.

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Ana Laura Murta, 22, é natural de Joaíma MG e graduando de Jornalismo na Universidade Federal de Ouro Preto. Descobriu que não consegue se descrever, por que é um vasto conteúdo de tudo e todos.

Contato: analgmurta@hotmail.com

                                                                                                                                                                                                                                                                               

 

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