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Arquivo mensal: abril 2017

A palavra de um ex-presidiário não vale nada

O retrato de Kênia Gabriela Mariano

Adrienne Pedrosa e Glauciene Oliveira

Kênia Gabriela Mariano. 32 anos. Marianense, criada em Passagem. Presa por tráfico de drogas. Ex-detenta. Mãe de quatro filhos. Desempregada. Kênia recebeu a equipe de reportagem na sala de sua casa, na presença de sua filha Geovanna (8), que permaneceu brincando no local durante toda entrevista. (mais…)

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Bento: uma história em curso

Ana Laura Rangel, Catharina Waichert e Marcio Gomes

Moradores de Bento Rodrigues ainda vivem o drama da condição provisória e lutam por direitos. Projeto urbanístico de reassentamento é discutido entre empresa e atingidos

 Todo lugar possui uma história própria, histórias cruzadas e uma cronologia. Mas o que acontece quando elas são interrompidas? O que acontece quando uma barragem de rejeitos as destrói? Há um futuro para elas? Os moradores de Bento Rodrigues, subdistrito de Mariana, acreditam que sim, mas só haverá reparação adequada através de muita luta e pressão popular para enfrentar a intransigência das empresas. O vilarejo que hoje é formado por lama e ruínas, foi cenário do maior crime socioambiental do Brasil de responsabilidade da empresa Samarco (Vale – BHP). (mais…)

Por trás das grades

Jaqueline Ferreira, Pedro Mol, Regina Celi e Sofia Fuscaldi

Condições inadequadas do Presídio de Mariana violam a dignidade dos detentos durante anos

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Por volta das duas da manhã de uma segunda-feira, 30 de janeiro de 2017, o centro da cidade de Mariana acordou com barulhos de tiros e bombas vindos da Rua 16 de Julho, onde está situada a penitenciária da cidade. Ao amanhecer, o trânsito na rua do presídio estava impedido por viaturas da polícia militar e do COPE (Comando de Operações Especiais). Os moradores da região ainda não tinham nenhuma informação sobre o ocorrido, e as famílias dos detentos esperavam preocupadas em frente aos muros do presídio.

Famílias esperando notícias (Foto: Jaqueline Ferreira)

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Presos do regime fechado escaparam de suas celas na tentativa de fugir do presídio, mas não conseguiram quebrar o cadeado do portão principal, pois foram contidos pelos agentes penitenciários. Dois detentos do regime semiaberto afirmaram que a rebelião se deu pela falta de infraestrutura adequada, superlotação e desumanização dos detentos por parte dos agentes.

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Número de vagas nas creches públicas de Mariana é insuficiente

Por Amanda Alves, Julia Massa, Matheus Queiroz

A cidade de Mariana, Minas Gerais (MG), conta com cinco creches públicas que atendem crianças de seis meses a três anos. Juntas, as instituições disponibilizam 323 vagas, que são disputadas por 463 crianças.

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Restrições à vacinação deixam grupos vulneráveis

Muito se sabe a respeito sobre a febre amarela, mas o que poucos sabem é que nem todos podem fazer uso da vacinação como forma de proteção da doença. Segundo a coordenadora responsável da Policlínica de Ouro Preto, Adriana Maria Custódio de Melo, a administração de doses para gestantes, idosos, imunodeprimidos e crianças abaixo dos nove meses de idade deve ser feita com controle, a partir de avaliação médica.Assim é possível levantar o risco ou benefício da vacinação. Por exemplo, se uma gestante necessita viajar para uma zona muito afetada pela doença, ela precisaria avaliar com seu ginecologista o quanto a prevenção se tornaria risco. Adriana também afirmou que até o final de fevereiro deste ano nenhuma gestante foi vacinada no município de Ouro Preto.

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Criminalidade em ascensão na cidade de Mariana

Número de ocorrências criminais cresce na Primaz de Minas

Carolina Carvalho, Larissa Chaves e Vitório Diniz

Letícia, 20 anos, estudante de Jornalismo da Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop), sofreu um assalto à mão armada no bairro São Gonçalo, às 9 da manhã, enquanto saía com uma amiga para procurar fontes para uma reportagem. Tânia, 40 anos, teve o retrovisor da motocicleta de seu esposo furtado, pela terceira vez, dentro da garagem da própria casa, na rua do Catete, no Centro da cidade. Rodrigo, 23 anos, estudante de Letras, teve o celular roubado em um assalto, às 22 horas, enquanto saía do campus do Instituto de Ciências Humanas e Sociais (ICHS), localizado no centro histórico de Mariana. Esse tem sido o panorama relatado por moradores da cidade que, com o passar dos anos, têm sentido insegurança diante do aumento das ocorrências de delitos e do descaso das autoridades locais.

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Ocupar Para Viver

Luan Carlos, Narrian Gomes e Samuel Senra

Sem condições de arcarem com aluguéis, famílias ocupam terrenos inativos em Mariana.

Na imagem, placa de uma das ruas do bairro Novo Horizonte (Foto: Luan Carlos)

Bairros em territórios ocupados, não reconhecidos como legítimos pela prefeitura, vem surgindo em Mariana nos últimos anos. Os dois maiores do gênero são o Santa Clara, que surgiu há aproximadamente 14 anos, e o Novo Horizonte, há apenas 6. Os dois bairros são, respectivamente, extensões dos já tradicionais e conhecidos Cabanas e Morada do Sol, e abrigam ao todo mais de mil e trezentas famílias, em sua maioria de baixa renda. Em meados de 2013 começou um intenso processo de expansão, a partir do qual pessoas que enfrentam dificuldades financeiras começaram a ocupar terrenos inutilizados pela prefeitura e terceiros. Esse movimento migratório surgiu, principalmente, dentro da própria cidade e, em pequena parte, de pessoas vindas das cidades e vilarejos vizinhos em direção às áreas inutilizadas.

Letícia Maia (22), graduanda em Serviços Sociais pela Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop) e autora de um Trabalho de Conclusão de Curso sobre o tema, frisa que essas pessoas optam pela ocupação dos terrenos para fugirem dos altos índices de valores de aluguéis. A possibilidade de começar uma vida nova, longe das áreas supervalorizadas, associada com as dificuldades financeiras, o desemprego e o sonho da aquisição da casa própria motivam esse processo.

 Nathália Rocha (24) e Sandro Flores (41) presidem, respectivamente, as associações dos moradores dos bairros Novo Horizonte e Santa Clara. Ambos os bairros estão sendo consolidados em territórios particulares, pertencentes em grande parte a prefeitura e a terceiros. Isso gerou uma disputa entre município, ocupantes e proprietários.

O município, ao considerar que as casas foram construídas em terreno irregular, deixa de fornecer apoio básico e estrutural, como rede de esgoto, correios, água e luz a mais de mil e trezentas famílias de baixa renda estabelecidas nas duas áreas. De acordo com fontes, os moradores também são, muitas vezes, privados de serviços particulares, como entrega de materiais de construção, de compras alimentícias e outras necessidades básicas. As pessoas que são vistas realizando esses tipos de serviços estão sujeitas a multas e repreensões por parte da fiscalização da Prefeitura.

De acordo com alguns moradores, parte das ocupações foram incentivadas por candidatos a cargos públicos na tentativa de conquistarem apoio político em eleições. Segundo os moradores, as pessoas poderiam ocupar determinados terrenos e depois que os candidatos fossem eleitos iniciaria-se o processo de regularização, o que nunca ocorreu.

 Atualmente, as ocupações acontecem durante a madrugada ou quando há festividades pela cidade. Nesses dias, a fiscalização fica concentrada nos locais dos eventos, longe dos bairros de ocupação. Em esforço conjunto, os moradores constroem pequenas moradias, com no mínimo um cômodo e banheiro. Toda a construção deve ser feita de uma só vez e, por isso, os construtores passam horas trabalhando nas obras. Quando acabadas, são alocadas famílias com ao menos uma mulher e uma criança. Posteriormente, as construções têm prosseguimento pelos próprios moradores, que fazem economias na intenção de, aos poucos, melhorarem suas casas.

Esses moradores também se encarregam de serviços que seriam de responsabilidade dos órgãos públicos: abrem e nomeiam ruas com as proporções previstas em normas, cavam e criam redes de esgoto devidamente tampadas, visando melhores condições de saúde pública e a segurança das crianças que brincam nas ruas. Projetam melhorias para o futuro e buscam solução legal para o impasse jurídico em que se encontram.

 Moradias populares

Além dos alugueis sociais, moradias populares também foram construídas nas proximidades de ambos os bairros. Várias famílias no momento passam por um processo de seleção, para que se  decida, baseado em critérios socioeconômicos, quem residirá nos domicílios. Porém, o que chama atenção, segundo os líderes de bairro Natália e Sandro, é que prédios de moradias populares foram construídos pela própria prefeitura nos terrenos denominados particulares, onde localizam-se as ocupações. Essas construções, terminadas há cerca de um ano, estão sem residentes, apesar de já estarem em condições de abrigar famílias. Estão agora  abandonadas, sem luz ou água regularizadas e sujeitas a depredação e vandalismo.

 Ao ser questionado sobre as ocupações, o prefeito eleito Duarte Júnior, mais conhecido como Du, argumentou que fazer novos loteamentos é mais barato que regularizar as moradias já existentes em áreas ocupadas. Os proprietários pedem valores mais altos do que os de mercado e isso requer ação judicial para ser regularizado. A prefeitura tentou, desde 2004, a negociação com os gestores da Companhia Minas da Passagem, principais proprietários dessas terras. Emitindo, inclusive, vários decretos de desapropriação das áreas ocupadas para que fosse realizada uma provável regularização dos terrenos, porém ambas as partes não chegaram a um acordo.

Nas imagens, as áreas demarcadas para desapropriação de terras nos bairros Novo Horizonte e Santa Clara, para que as residências pudessem ser regularizadas. (Imagens: arquivo da Prefeitura de Mariana)

Com relação aos conjuntos de moradias construídos em áreas particulares, o prefeito confirmou que alguns dos prédios realmente foram erguidos em terreno alheio pela antiga gestão. E por também serem construções irregulares, tanto os prédios quanto os moradores do bairro não podem se beneficiar com os serviços de coleta de lixo, água, saneamento básico e luz elétrica. Sem previsão para residirem nos prédios de moradias construídos pela prefeitura e sem o apoio do município para a estruturação dos bairros, os próprios moradores trabalham em forma de comunidade.

Na imagem, parte da tubulação da rede de esgoto instalada pelos próprios moradores e uma das ruas danificadas pela água da chuva. (Foto: Samuel Senra)

Por diversas vezes os moradores tiveram suas obras impedidas e os materiais de construção recolhidos pela prefeitura, além da proibição da entrada de caminhões de abastecimento de água. O abastecimento é feito, na maioria das vezes, pela água da chuva, que é armazenada em diversas caixas d’água instaladas pelos próprios moradores em suas residências. É comum a ocorrência de mais de um reservatório por casa.

 “Por parte da prefeitura luz e água nunca chegaram aqui”, alega Natália. “Se a prefeitura não pode fazer, por que os moradores não podem?”, ela completa. Os trabalhos nos bairros são necessários para que haja melhoria da qualidade de vida dos que ali habitam. Portanto, eles têm tomado as iniciativas das obras e reformas.

 Na imagem, as casas habitadas e acima delas um prédio da prefeitura de moradias populares inacabado. (Foto: Samuel Senra)