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Caminhos do lixo

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Letícia Lopes, Lethícia Souza e Fernanda Walmer

Coleta seletiva tem ganhado o destaque merecido por seu papel de agente transformador na sociedade.

Trabalhar o destino do que é descartado faz parte de políticas públicas e deveria ser uma ação social. A coleta seletiva está presente em muitas cidades de Minas Gerais, apesar de nem sempre apresentar eficácia e, na maioria das vezes, não ter a visibilidade necessária. Em Mariana, existe um centro responsável por esse trabalho, a cooperativa Camar. Na Universidade Federal, em Ouro Preto, projetos têm atraído a atenção de professores e estudantes que trabalham para além dos muros, em parceria com a comunidade. Ademais, algumas iniciativas estão crescendo e transformando a vida de muitas pessoas, como a Cidinha.

O lixo como agente transformador de vidas

Maria da Conceição Aparecida, ou Cidinha, como gosta de ser chamada, descobriu no lixo um novo caminho profissional por intermédio de seu irmão Arineu. Foi ele quem iniciou atividades de coleta seletiva em Mariana e desde que ele a convidou para participar da ideia ela descobriu ali uma alternativa de renda. “Antes a gente só pensava nisso mesmo, conseguir uma renda extra. Hoje a gente pensa no meio ambiente e vê a importância de transformar esses resíduos”, disse Cidinha. Atualmente, como presidente da Camar, Centro de Coleta de Materiais Recicláveis de Mariana, ela relembra a época que trabalhava no aterro da cidade e como era difícil se dedicar muito e não receber quase nada pelo esforço. Lembrou também de como as pessoas morriam cedo, por ficarem expostas a fontes de doenças e componentes agressivos à saúde. “Aqui nós temos mais consciência das coisas. Se chega algum lixo que contém risco, ninguém abre”.

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Maria da Conceição Aparecida. Foto: Letícia Lopes.

Na cooperativa ela encontrou uma possibilidade de garantir não só o próprio sustento, mas o de muita gente. Cidinha conta que muitas pessoas vão até o galpão em  busca de emprego e mudança de vida, mas ainda que ela queira ajudar a todos, não existe uma estrutura para um maior número de associados. Apesar do crescimento que se espera, o Centro precisa de apoio financeiro para melhorias estruturais e mesmo que a prefeitura de Mariana arque com os principais investimentos do espaço, a demanda continua aumentando e são muitos os planos de expansão. A presidente afirma que gostaria de instalar novos pontos de separação de lixo e novos galpões, para que continuar colaborando com a comunidade e com o mundo. “É uma transformação para a comunidade. Quando você fala de coleta seletiva, você tá cuidando de tudo mesmo. Água, animais, floresta e principalmente das pessoas. Sustentabilidade pra mim é isso, é cuidar de pessoas. E se o lixo da sua cidade é reaproveitado, você tá resgatando vidas” alerta.

Camar

O serviço de coleta em Mariana está localizado no bairro Cruzeiro do Sul. O Centro de Aproveitamento de Materiais Recicláveis (Camar), presidido por Cidinha, é uma cooperativa que trabalha em parceria com a Prefeitura de Mariana. O projeto foi escrito em 2006 e virou realidade em 2008. De início, a prefeitura cedeu um galpão pequeno onde os associados recebiam os descartes e faziam toda a separação, mas com o rápido crescimento, fez-se necessário ocupar um espaço maior, onde eles trabalham hoje.

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Galpão Camar. Foto: Lethícia Souza.

A Camar atualmente conta com 28 funcionários. Eles se dividem entre os catadores, que são responsáveis pelo recolhimento do material nas ruas, os separadores, que organizam o que foi recolhido de acordo com suas características e finalidades,  e os administradores. O caminhão alterna diariamente sua rota para atender todos os bairros da cidade e coleta, semanalmente, cerca de 12 toneladas de lixo reciclável (metais, papéis, vidros, plásticos e eletrônicos), que ganham diferentes rumos. Há empresas parceiras como a Arcor, em Belo Horizonte, que compram o material quinzenalmente. Existe também, um projeto de reciclagem de garrafas pet dentro da Camar: “A gente separa, corta as garrafas e fazemos vassouras para vender” conta Cidinha, presidente da associação. A cada quinzena a transformação de garrafas em vassouras gera um lucro total de mil e duzentos reais, divididos entre os funcionários.

Beatriz Miranda (20) mora em um apartamento, com mais duas garotas, no bairro Vila do Carmo. Elas separam o lixo doméstico em reciclável e não reciclável, mas, segundo ela, o problema é não saber como proceder após a separação. Elas descartam o material reciclável em uma caixa de papelão, porém a estudante afirma: “nunca vi um caminhão diferente recolhendo as caixas com o lixo que separamos”.

Maria da Conceição diz que a parte da divulgação e mobilização na sociedade é responsabilidade da prefeitura, que atua nas escolas e redes sociais. Segundo ela, essa publicidade já melhorou muito, mas ainda precisa alcançar mais pessoas porque muitas delas ainda não sabem como fazer e quando o caminhão passa. “É muito importante que a população abrace a ideia da sustentabilidade porque só assim o nosso trabalho se torna realmente eficiente”.

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Infográfico feito a partir de informações coletadas no site da Camar.

A Coleta Seletiva e a Universidade

Sobre o decreto n° 5.940 de 25 de outubro de 2006, que institui a Coleta Seletiva nos órgãos federais, a Universidade Federal de Ouro Preto desenvolve um programa vinculado à Pró reitoria de Extensão Universitária que é voltado para a redução de resíduos na comunidade acadêmica. Intitulado como Ufop Reduz, o projeto visa estimular a reutilização, redução e reciclagem do lixo, por meio de coletas seletivas e campanhas de conscientização. Mesmo com a lei, Ouro Preto e Mariana só apresentam a coleta seletiva no campus Morro do Cruzeiro, em Ouro Preto. As unidades ICSA e ICHS não possuem projeto e nem mesmo lixeiras próprias para separar os resíduos.

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Quadro de horários da coleta seletiva nos bairros de Mariana. Disponibilizado pela Camar.

A maioria dos alunos não têm consciência do destino do lixo e muitos, não repararam a falta das lixeiras identificadas. Hanna Carvalho (19), cursa jornalismo na UFOP e disse nunca ter escutado ninguém falar sobre isso na universidade, além de não ter acesso a nenhuma informação sobre como é feito o descarte dos resíduos. Já Vitor Maia (20), cursa história no ICHS e sentiu falta da identificação: “Sou de Inhapim e na minha cidade, eu fui acostumado a sempre separar o lixo, principalmente nas escolas em que estudei. Cheguei aqui e nada, nenhuma lixeira identificada”, disse.

Wilson Jânio (27), funcionário da limpeza, trabalha no Icsa há quatro anos e diz nunca ter sido instruído a fazer nenhum tipo de separação do lixo. “A gente recolhe todo o lixo da faculdade e coloca na rua para o caminhão comum pegar.”  Maria Lúcia, funcionária da limpeza, conta que por mais que haja uma lixeira específica para os papéis, os alunos jogam todos os tipos de lixo e dificultam a separação. “Cada um joga o que quer e aí acaba virando bagunça”.

O diretor José Benedito Donadon disse que há um pedido institucional feito ao setor de planejamento, desde 2008, para que projetos ambientais, incluindo lixeiras identificadas cheguem a todos os campi. Segundo ele, o pedido é reiterado, sem sucesso, todos os anos. “Nós como universidade temos responsabilidade ambiental. Com a prevista mudança de reitoria, vamos providenciar uma reunião para apresentar as demandas do Instituto. Entre elas estão as lixeiras e programas ambientais para que exista essa cultura na universidade”, afirmou Donadon.

Enquanto as medidas não são tomadas, o Icsa disponibiliza uma lixeira onde só deve ser feito o descarte de papel, mas não é o que acontece. O diretor disse ainda que o recolhimento desses papéis é feito pelos servidores duas vezes ao dia e entregue à Camar.

Programa Reciclagem Digital

Danny Tonidadel, professor do curso de Controle e Automação na Universidade Federal de Ouro Preto, orienta, desde setembro de 2016, um projeto de extensão que tem como objetivo reciclar lixos eletrônicos descartados, principalmente, pela comunidade acadêmica. O campus Morro do Cruzeiro possui um galpão para onde são levados e selecionados esse tipo de resíduo. Segundo o professor, um aluno visitou o galpão e ficou impressionado com a quantidade de máquinas que ainda poderiam ser aproveitadas. Foi assim que surgiu a ideia do programa “Reciclagem Digital”. Danny explica que existem três projetos vinculados ao programa e que exercem ações práticas na região.

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Local de coleta do material reciclável do ICSA. Foto: Lethícia Souza.

Foi aprovada no país em 2010 a Lei Federal nº 12.305, referente à Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), que obriga pessoas físicas e jurídicas a darem destinação adequada para os resíduos sólidos, inclusive os eletrônicos. Porém, de acordo com o site oficial da Organização das Nações Unidas (ONU), “cerca de 80 mil toneladas de resíduos sólidos urbanos são descartados de forma inadequada no Brasil todos os dias”. Além disso, “a indústria eletrônica, uma das maiores e que mais crescem no mundo, gera a cada ano até 41 milhões de toneladas de lixo eletrônico de bens como computadores e celulares smartphones”, sendo que “o Brasil é um dos poucos países da região a possuir legislação para lidar com o descarte de forma apropriada.”

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Local de descarte de lixo eletrônico na UFOP. Arquivo de reciclagem digital.

O primeiro projeto prático da Universidade é o Frankestein e consiste na doação de computadores recuperados a partir de materiais coletados da área de descarte da Ufop. O segundo, Hospital das Máquinas, visa a conscientização das pessoas acerca da obsolescência pré estabelecida para aparelhos. Para que isso seja compreendido e a vida útil de aparelhos estendida, os membros do projeto oferecem, gratuitamente, manutenção e instalação de hardwares e softwares. O terceiro projeto é o de Manufatura Reversa e tem como principal ação o desmonte de máquinas e aproveitamento das peças para pesquisa dentro da Universidade.

Todos os projetos têm interação com a comunidade de Ouro Preto e Mariana e já existe demanda em Antônio Pereira, mas os responsáveis pelo programa estão procurando transporte para efetivar ações no distrito. Atualmente, mais de 300 pessoas foram contempladas pelas iniciativas de recuperação de laboratórios em instituições e manutenção de computadores. Além das ações já permanentes, existe uma meta futura de mineração urbana, onde os envolvidos com o projeto trabalharão com o desmanche de peças e aproveitamento de metais nobres encontrados em eletrônicos. O objetivo desse projeto a longo prazo é diminuir o uso do solo para mineração e obter esses metais a partir de materiais já presentes no meio social.

O projeto conta também com doações externas. Qualquer pessoa pode procurar um dos responsáveis e se informar sobre descarte de lixos eletrônicos através deste link.

Informações sobre coleta seletiva e descarte de lixo podem ser obtidas por meio do site da prefeitura de Mariana (Link), Camar (Link) e pelo site da Ufop (Link).

Galeria de fotos

 

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